Real Piano posto à prova
Peguei no tablet a meio de uma tarde parada, abri o Real Piano e toquei as primeiras notas de uma peça que ando a estudar há meses. O som saiu limpo, bastante mais limpo do que eu esperava de um teclado desenhado sobre vidro. A frase seguinte, essa, saiu torta, e o problema não estava nos meus dedos.
Essa contradição resume a aplicação inteira. Entre os quatro títulos musicais da Kolb Apps que instalei, é o que melhor sobrevive à mudança de suporte, porque um teclado é, na sua essência, uma fila de superfícies planas que se premem. Nenhum dos outros parte com essa vantagem.
Um teclado de duas oitavas no bolso
No telemóvel cabem pouco mais de duas oitavas de cada vez e é preciso deslizar lateralmente para alcançar o resto. Existe a opção de dividir o ecrã em duas filas sobrepostas, o que ajuda quando a peça salta entre registos graves e agudos, embora obrigue a olhar sempre para baixo. Num tablet a diferença é enorme: as teclas ficam com largura próxima da real e a mão esquerda deixa de tropeçar na direita. Se tiver um, é aí que deve instalar isto.
Também pode encolher as teclas para ver mais notas ao mesmo tempo. Perde-se precisão na mesma medida em que se ganha panorâmica, e fiquei quase sempre no ajuste intermédio, o único compromisso utilizável para quem tem dedos de adulto. Quem tiver mão mais estreita talvez consiga descer outro grau sem prejuízo da pontaria.
Aulas em vídeo e acompanhamentos
As lições estão organizadas em vídeo, com o teclado filmado de cima e as notas a acenderem à medida que soam. Não é um método estruturado, é uma sequência de peças com explicação, e nota-se que foi pensada para quem quer tocar uma canção conhecida ao fim de meia hora. O formato pareceu-me honesto dentro do que promete: ninguém sai dali a ler pauta, mas sai a saber onde ficam as notas de uma melodia simples.
Os acompanhamentos foram a parte que mais me prendeu. Escolhe-se uma base, toca-se por cima dela e ganha-se uma noção de tempo que o estudo em silêncio nunca dá. A biblioteca é curta e repete-se depressa, ainda assim cumpre para trabalhar a mão direita contra um andamento fixo.
Latência: o problema de todos os pianos táteis
Aqui está a reserva séria. Entre o toque no vidro e o som que sai da coluna existe sempre um intervalo, pequeno em termos absolutos e gigantesco em termos musicais. Em passagens lentas quase não se nota. Em qualquer coisa que exija articulação rápida, a mão adianta-se ao ouvido e o resultado desfaz-se. Com auscultadores de fio melhorou; com ligação sem fios piorou ao ponto de tornar o exercício inútil. A limitação vem do sistema e do equipamento, não desta aplicação em concreto, só que o efeito prático é o mesmo.
Soma-se a ausência de resposta ao toque. O vidro não distingue um dedo que cai com peso de um dedo que aflora, e a variação de intensidade é quase nula. Quem estuda dinâmica não encontra aqui onde a treinar. É a distância que separa carregar em teclas de tocar, e nenhuma definição escondida nos menus a encurta.
Bancos de sons e variedade de timbres
A oferta de timbres é generosa: pianos de cauda, pianos verticais, órgãos, teclas elétricas de ataque metálico, cordas e algumas escolhas mais estranhas. A qualidade das amostras é irregular. O piano de cauda principal está bem gravado e sustenta uma peça inteira, enquanto vários sons elétricos ficam finos assim que se toca um acorde cheio. Vale a pena percorrer a lista com calma em vez de ficar pelo primeiro que aparece.
Para quem estuda e para quem só quer brincar
Distingo dois usos e só um deles me convence por completo. Como bloco de apontamentos musical, para testar uma harmonia, fixar uma ideia ou mostrar a alguém como soa uma passagem, funciona muito bem e dispensa o instrumento físico, que é afinal a proposta central da casa. Como ferramenta de estudo continuado serve de complemento e nunca de substituto: a técnica construída sobre vidro não se transfere para teclas com peso.
Balanço
A favor
- A divisão do teclado em duas filas sobrepostas resolve bem as peças que saltam entre registos graves e agudos.
- O piano de cauda principal está bem amostrado e aguenta uma peça inteira sem soar a brinquedo.
- As bases de acompanhamento obrigam a manter o andamento, coisa que o estudo em silêncio nunca faz.
- Num tablet as teclas ficam perto da largura real e a mão esquerda deixa de ser adivinhação.
Contra
- O atraso entre o toque e o som inviabiliza qualquer passagem rápida, sobretudo com auscultadores sem fios.
- O vidro não regista a força do dedo, portanto não sobra dinâmica nenhuma para trabalhar.
- Vários timbres elétricos ficam finos e desagregam-se logo que se toca um acorde cheio.
Veredicto
Poucas aplicações musicais me deixaram tão perto da sensação de estar mesmo a tocar. A superfície plana atenua a artificialidade, os timbres principais aguentam escuta atenta e as bases dão uma razão para voltar no dia seguinte. Fica muito aquém de um instrumento a sério por causa do atraso e da falta de dinâmica, e nunca disfarça isso. Instale-o sem expectativas de aprendizagem formal e sairá satisfeito.