Real Drum em detalhe
De todas as tentativas de meter um kit de bateria dentro de um telemóvel, esta é a mais bem resolvida que me passou pelas mãos. Não porque consiga o impossível, já que lhe continua a faltar o pé e a faltar o braço, mas porque trata quem a usa como alguém que sabe o que quer: deixa mudar as peças de sítio, deixa guardar o que se toca e não esconde ferramentas atrás de menus. Fiquei com ela bastante mais tempo do que tencionava.
O kit, os pratos e a disposição no ecrã
O ponto de partida é um conjunto reduzido, com bombo, tarola, dois tons e dois pratos, e a partir daí acrescenta-se. Existem tambores adicionais, pratos de vários feitios e percussão avulsa, e o mais importante é poder arrastar cada peça para onde ela faz sentido para os seus dedos. Reorganizei o meu para ter a tarola e o bombo debaixo dos polegares e a diferença na velocidade a que consigo tocar foi imediata. Poucas aplicações musicais deixam mexer nisto.
Em telemóveis pequenos o problema é outro: cada peça acrescentada rouba área às restantes e chega-se depressa ao ponto em que o kit bonito é o kit em que ninguém acerta. Contive-me nas sete peças e foi a decisão certa.
Gravar, repetir, guardar ideias
A gravação foi a funcionalidade que me fez ficar. Carrega-se num botão, toca-se o que se tem na cabeça e aquilo fica guardado para ouvir depois, o que transforma a aplicação num caderno de ritmos. Junte-se-lhe o sequenciador, que constrói ciclos passo a passo, e torna-se possível esboçar uma ideia completa: uma base repetida por baixo e uma variação tocada por cima. É rudimentar ao lado de qualquer programa de computador, só que está no bolso e abre em dois segundos.
Aulas em vídeo: para que servem
As lições mostram um baterista a tocar com o kit filmado, e acompanha-se nas peças correspondentes do ecrã. São úteis para perceber a lógica de um padrão, onde cai o bombo, onde entra a tarola, como se conta um compasso, e completamente inúteis para tudo o que envolva postura, pega das baquetas ou independência dos membros. Encaro-as como leitura e não como treino. Quem quiser levar a coisa a sério vai precisar de um professor e de baquetas verdadeiras.
Barulho, colunas e auscultadores
Há um problema prático de que quase ninguém fala. A coluna de um telemóvel não reproduz um bombo: o que sai é um estalido agudo sem corpo nenhum, e o que se está a tocar deixa de fazer sentido. Com auscultadores decentes a aplicação parece outra, a pele da tarola soa cheia e os pratos decaem como devem. Prefira os de fio, porque os sem fios acrescentam um atraso que na percussão é fatal, com a pancada a chegar sempre depois do gesto.
Do lado bom, é o tipo de aplicação que se usa em silêncio absoluto para quem está à volta, o que a torna viável às onze da noite num prédio com vizinhos. Um kit acústico não tem essa cortesia. Tentei praticar com um pad de borracha à mesma hora e a experiência acabou numa conversa embaraçada com o andar de baixo.
Quando substitui um pad de estudo
Respondo sem rodeios: substitui em duas coisas e em mais nenhuma. Serve para memorizar a estrutura de um padrão e para guardar uma ideia antes que ela se perca. Não serve para construir resistência, controlo de baqueta ou ricochete, porque o vidro nada devolve à mão. Se está a decidir entre isto e um pad de borracha barato, fique com o pad; se está a decidir entre isto e não tocar nada durante a viagem, instale isto.
Balanço
A favor
- Cada peça do kit pode ser arrastada para outro sítio, o que altera mesmo a velocidade a que se toca.
- A gravação transforma a aplicação num caderno de ritmos que abre em dois segundos.
- Os timbres de tarola e pratos aguentam escuta com auscultadores sem soar a plástico.
- Permite tocar às onze da noite sem incomodar ninguém no prédio.
Contra
- Nas colunas do telemóvel o bombo desaparece e sobra um estalido agudo sem corpo.
- Acrescentar peças ao kit reduz a área de cada uma até o ecrã do telemóvel deixar de ser utilizável.
- Sem pedal e sem sensibilidade ao peso da pancada, a independência dos membros fica por treinar.
Veredicto
Chego ao fim com mais simpatia do que esperava. É a mais completa das aplicações de percussão que experimentei nesta casa, sobretudo por deixar arrumar o kit à medida da mão e por guardar aquilo que se toca. As limitações são as do formato e não da execução: sem pé, sem peso e sem baquetas, o que se treina aqui é a cabeça e não o corpo. Com auscultadores de fio, é um caderno de ritmos honesto.