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Análise · Música e ritmo

O que esperar do Classic Drum

Duas baterias da mesma casa, feitas com propósitos diferentes: é assim que arrumo o Classic Drum na estante. Enquanto o irmão mais conhecido quer imitar um kit acústico com a maior fidelidade possível, este assume-se como uma caixa de ritmos com pele de bateria. O ecrã mostra tambores e pratos vistos de cima, sim, mas o coração da aplicação está numa grelha de passos que se acende e se repete sozinha.

Ecrã de jogo de Classic Drum: toque bateria
Classic Drum: toque bateria: um dos primeiros ecrãs de jogo.
Ecrã de jogo de Classic Drum: toque bateria
Classic Drum: toque bateria: o mesmo jogo com o tabuleiro mais adiantado.

Uma bateria vista de cima

O desenho é o habitual nesta família: o kit inteiro cabe no ecrã, visto de um ângulo que nenhum baterista tem na vida real, com o bombo em baixo, a tarola à esquerda e os pratos espalhados pelas bordas. A leitura é imediata e não é preciso deslizar nada para chegar a uma peça. Em contrapartida, as áreas sensíveis são pequenas no telemóvel, e a tarola e o aro ficam colados um ao outro, o que produz sons trocados com frequência incómoda.

Pode escolher outros conjuntos de tambores e alterar o que aparece, ainda que com menos liberdade do que eu gostaria. A arrumação é praticamente fixa: decide-se o material, não o sítio onde ele fica. Quem quiser deslocar o prato de choque para o outro lado, como faria diante de um kit verdadeiro, tem de se conformar com a planta original.

O sequenciador e a criação de padrões

É aqui que a aplicação se justifica. Abre-se uma grelha de passos, ativam-se os que interessam para cada peça do kit e o padrão passa a rodar em ciclo enquanto se sobrepõe o que se quiser por cima. Montei uma batida simples em menos de dois minutos e passei a meia hora seguinte a mexer-lhe, que é exatamente o efeito que uma ferramenta destas deve provocar. Para quem escreve canções e precisa de uma base sobre a qual experimentar versos, isto vale mais do que qualquer lição.

As limitações aparecem depressa. O número de passos disponíveis prende os padrões a compassos simples, e quem procurar um ritmo em sete tempos ou uma subdivisão irregular vai bater na parede. Não há forma de encadear vários padrões numa estrutura, portanto o que sai é sempre um ciclo, nunca uma música.

Tocar com os dedos: o que se perde

Tocar bateria é uma atividade de corpo inteiro, e dois dedos sobre vidro não substituem quatro membros independentes. Falta-lhe o mais importante, que é o pé: o bombo passa a ser mais um alvo para o polegar e desaparece a coordenação que separa quem toca de quem carrega em coisas. Nada responde à força do golpe, portanto todas as pancadas soam iguais e a diferença entre um acento e uma nota de passagem tem de ser imaginada por quem ouve.

Diferenças face ao Real Drum do mesmo autor

Se tiver de escolher entre os dois, a pergunta certa é o que pretende fazer com eles. O Real Drum tem o conjunto de sons mais cuidado, mais material de aprendizagem e um kit que se reorganiza peça a peça; é o mais próximo de tocar. Este é mais leve, arranca melhor em telemóveis antigos e trata o sequenciador como atração principal, não como extra. Uso o primeiro quando quero praticar e este quando quero desenhar um ritmo para levar para outro lado.

Balanço

A favor

  • A grelha de passos permite montar uma batida em ciclo ao fim de poucos minutos, sem manual nenhum.
  • O kit inteiro está visível de uma só vez e nunca obriga a procurar peças fora do ecrã.
  • Arranca com rapidez mesmo em telemóveis com alguns anos, ao contrário de outras aplicações musicais.

Contra

  • Sem pedal e sem sensibilidade à força, o bombo e os acentos ficam reduzidos a toques todos iguais.
  • A tarola e o aro estão demasiado próximos no telemóvel e disparam o som errado com frequência.
  • Os padrões não se encadeiam entre si, o que impede construir seja o que for para além do ciclo.

Veredicto

Vale sobretudo pela grelha de passos. Como bateria para tocar fica atrás do irmão e atrás de qualquer superfície física, mesmo uma almofada, porque lhe falta o pé e lhe falta o peso da pancada. Como bloco de rascunho rítmico é rápido, claro e suficientemente teimoso para me fazer perder tempo com ele. Recomendo-o a quem compõe e desaconselho-o a quem quer mesmo aprender a tocar.