Real Bass, avaliado sem indulgência
Custa-me escrever sobre esta aplicação, e a culpa não é de quem a fez. Um contrabaixo vive da mão direita, de saber se o dedo puxa a corda ou lhe bate, se a solta ou a abafa, e é precisamente essa metade do instrumento que um ecrã não consegue devolver.
O que fica é a outra metade: as posições, os intervalos, o desenho do braço. Não é pouco, só que convém dizê-lo à cabeça, porque a descrição da loja sugere outra coisa.
Cordas num ecrã liso
O braço aparece na horizontal, com as quatro cordas e os trastes marcados, e toca-se ao carregar na casa pretendida. Funciona, no sentido em que sai a nota certa. O que não sai é a articulação: não há maneira de abafar com a palma, de deixar uma corda soar por baixo de outra ou de fazer um ligado ascendente com a mesma mão. O som é sempre a amostra completa, do princípio ao fim, com a mesma intensidade.
Ao contrário de um teclado, cujas teclas já são superfícies planas, o braço de um baixo depende de altura, tensão e pressão. Nada disso existe no vidro, e sente-se logo no segundo compasso. Carrega-se com a mesma força em todo o lado e obtém-se sempre o mesmo resultado, coisa que num braço a sério jamais aconteceria.
Dois modos: dedilhado e acordes
Há duas formas de tocar. No modo de dedilhado vê-se o braço inteiro e escolhe-se casa a casa, o que é lento mas fiel à posição real dos dedos. No modo de acordes a aplicação prepara conjuntos de notas e basta desencadeá-los, o que serve para acompanhar uma canção sem pensar muito. O primeiro é o único com valor pedagógico; o segundo é entretenimento, e não finge o contrário.
Onde a metáfora falha
A falha maior está na mão direita, que simplesmente não existe. Num baixo verdadeiro, a mão que ataca a corda decide quase tudo: o ataque, a duração, o silêncio entre notas, o carácter da linha. Aqui o toque é uma ordem binária e o resto vem gravado de fábrica. O resultado é que a mesma linha tocada por duas pessoas diferentes soa exatamente igual, o que num instrumento com esta personalidade chega a ser uma contradição.
Acrescento o atraso do sistema, que incomoda aqui mais do que num teclado, porque o baixo é a peça que sustenta o tempo de tudo o resto. Meio instante fora do sítio e a linha deixa de servir para nada.
Utilidade real para quem já toca baixo
Encontrei-lhe um uso concreto que não esperava. Quando quero decorar as posições de uma escala ou verificar como soa uma linha antes de a levar para o ensaio, isto resolve. Também é razoável para treinar o ouvido: toca-se um intervalo, canta-se, confirma-se. Quem tem o instrumento em casa acabará por usar isto no comboio ou no intervalo do almoço, em sítios onde levar um baixo às costas não é opção.
Balanço honesto
Fico com a impressão de uma aplicação competente a fazer aquilo que era possível fazer, presa a uma ideia que não escala bem. Os sons são decentes, o braço está bem desenhado, as lições em vídeo estão lá. Nada disso resolve o essencial. Dou-lhe a nota mais baixa dos instrumentos desta casa por uma razão simples: quanto mais o instrumento depende do gesto, menos o vidro tem para oferecer em troca.
Balanço
A favor
- O braço com as quatro cordas e os trastes está desenhado com clareza e serve mesmo para fixar posições.
- O modo de dedilhado obriga a escolher casa a casa, o que tem valor real para memorizar escalas.
- Funciona como bloco de notas para experimentar uma linha longe do instrumento, no comboio ou ao almoço.
Contra
- A mão direita não existe: ataque, duração e silêncio entre notas vêm todos decididos pela amostra.
- Não há forma de abafar com a palma nem de ligar duas notas, gestos básicos de qualquer baixista.
- O atraso do sistema é especialmente nocivo num instrumento cuja função é sustentar o tempo.
- O modo de acordes desencadeia conjuntos prontos e afasta-se por completo daquilo que se faz num baixo.
Veredicto
Recomendo-a com uma condição clara: sirva-se dela como mapa do braço e como caderno de ideias, nunca como aula de baixo. Para memorizar posições, comparar intervalos e esboçar uma linha longe de casa, cumpre o papel e é agradável de manusear. Para construir a técnica que faz um baixista soar como ele próprio não há aqui nada, e nenhuma aplicação de ecrã tátil terá.