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Análise · Perguntas e jogos de grupo

Quem sou eu? - Guess Up Mímica na prática

Comparado com o Undercover, este é o jogo barulhento da lista. Aqui ninguém fica sentado: o telemóvel encosta-se à testa com o ecrã virado para fora, a sala inteira lê a palavra que a pessoa não vê, e o minuto seguinte passa-se a gesticular, a imitar sons e a tentar não bater na mobília. Funciona pelas mesmas razões por que funcionava a mímica em papel, com a vantagem de a lista de palavras já vir feita.

Ecrã de jogo de Quem sou eu? - Guess Up Mímica
Quem sou eu? - Guess Up Mímica: um dos primeiros ecrãs de jogo.
Ecrã de jogo de Quem sou eu? - Guess Up Mímica
Quem sou eu? - Guess Up Mímica: o mesmo jogo com o tabuleiro mais adiantado.

Mímica com o telemóvel na testa

O gesto que define o jogo é este: o aparelho fica apoiado na testa, preso pela mão, com o ecrã voltado para o grupo. Quem o segura não faz ideia do que lá está escrito. Os outros representam, cantam ou descrevem sem dizer a palavra, e a resposta certa marca-se inclinando o telemóvel para baixo; para passar à frente, inclina-se para cima.

O sensor de movimento responde bem, mas responde bem de mais. Nos primeiros minutos passei cartas sem querer, só por baixar a cabeça a rir. Habitua-se depressa, e quem preferir pode responder por toque, o que resolve o problema em salas mais agitadas.

Categorias e criação de listas próprias

As categorias passam da centena e cobrem o previsível — filmes, animais, profissões, personagens, canções — com desigualdade evidente de qualidade. Algumas estão bem construídas e correm sozinhas; outras juntam trinta cartas fáceis e cinco impossíveis, e é preciso saltar palavras a meio. Quem joga com frequência acaba a fixar meia dúzia de listas e a ignorar as restantes.

A funcionalidade que mais me interessou foi outra: criar listas próprias. Escrever as palavras à mão, com nomes de pessoas conhecidas e referências de família ou de trabalho, transforma por completo a noite. Dá trabalho na primeira vez e compensa em todas as seguintes. Há também gravação de vídeo durante a ronda, que produz material embaraçoso na medida certa.

Espaço, barulho e vergonha

Convém pensar onde se vai jogar. Uma pessoa a representar precisa de dois metros livres e de à-vontade para se pôr de pé no meio da sala; um sofá encostado a uma mesa de centro não chega. O volume também não é discreto: entre respostas gritadas e riso, isto ouve-se do andar de baixo, e não é o jogo indicado para as onze da noite num prédio.

E há a barreira que nenhuma aplicação resolve. Nem toda a gente quer levantar-se e imitar um pinguim à frente de dez pessoas. Em grupos onde nem todos se conhecem, vi a coisa correr mal por causa disso. Resulta muito melhor entre gente de confiança do que como forma de quebrar o gelo entre desconhecidos.

Idioma e conteúdo das cartas

Este é o ponto que mais me incomodou, e é preciso dizê-lo com clareza: uma parte considerável do conteúdo está em português do Brasil. Aparecem nomes de programas de televisão, humoristas e figuras públicas que nada dizem a quem cresceu em Portugal, e vocabulário que faz a mesa parar a meio da volta para perguntar o que aquilo quer dizer. Não é um defeito de tradução, é uma escolha de mercado.

Na prática resolve-se escolhendo categorias neutras — animais, objetos, ações, profissões — e construindo listas próprias para o resto. Mas obriga a um trabalho de triagem antes de pôr o jogo à frente de convidados, e quem não o fizer vai ter voltas mortas em cima da mesa.

Balanço

A favor

  • A resposta por inclinação do telemóvel liberta as mãos e mantém o ritmo da volta alto.
  • Criar listas de palavras próprias é simples e faz do jogo um serão feito à medida do grupo.
  • A gravação de vídeo durante a ronda produz material que o grupo revê logo a seguir.
  • As regras percebem-se antes de acabar a primeira carta, sem ninguém ter de as explicar.

Contra

  • Boa parte das categorias assenta em referências brasileiras que deixam uma mesa portuguesa em silêncio.
  • Precisa de espaço para uma pessoa se levantar e representar, o que exclui salas pequenas.
  • É um jogo alto: entre respostas gritadas e riso, não serve para horas tardias num prédio.

Veredicto

Aqui o problema não é a mecânica, é o catálogo. O gesto de pôr o aparelho na testa continua a resultar, as listas próprias salvam qualquer noite e a gravação de vídeo dá um remate divertido ao serão. Contra ele pesam o conteúdo pensado para outro país e a exigência de espaço e de disposição para fazer figura. Prepare duas ou três categorias antes de o levar para a mesa e evite-o em apartamentos de paredes finas.

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