Vale a pena o TRIVIA STAR?
Há uma altura da noite em que já não me apetece pensar em nada e ainda não me apetece dormir. É nessa faixa estreita que este questionário me tem sido útil: quatro respostas, um relógio a correr, a pergunta seguinte antes de eu ter tempo de me distrair.
Dito isto, é um produto irregular. O formato é sólido e a execução técnica não tem falhas de maior, só que o conteúdo, que num jogo de perguntas é tudo, oscila entre o bem escrito e o traduzido à pressa.
Perguntas de escolha múltipla contra o relógio
A estrutura é a clássica e não guarda surpresas: enunciado em cima, quatro opções em baixo, um contador que desce e obriga a decidir. Acertar em cadeia dá um ritmo agradável à sessão e falhar interrompe-a de forma seca, sem drama nenhum. O tempo por pergunta está bem calibrado, chega para ler com calma um enunciado curto e não chega para ir procurar a resposta noutro lado, que é exatamente onde deve ficar.
O que falta é uma noção de progresso que interesse. Os níveis sucedem-se, os ecrãs de fim de ronda são todos iguais e ao cabo de meia hora não há nada a que voltar senão mais perguntas. É um formato de bolso e assume-se como tal.
Sessenta categorias de qualidade desigual
São mais de sessenta rubricas, entre conhecimentos gerais, cinema, música, geografia, comida, ciência, marcas e desporto, e a variação entre elas é o maior defeito do conjunto. As de conhecimentos gerais e de geografia estão bem construídas, com enunciados claros e opções que exigem mesmo saber a resposta. Já as de celebridades e televisão parecem montadas a partir de uma lista qualquer, com nomes de programas que nunca chegaram cá e apresentadores que só fazem sentido de um lado do Atlântico.
O desequilíbrio é geográfico antes de ser temático. Uma parte substancial do material foi escrita a pensar em quem vive nos Estados Unidos, e nota-se em desporto, em política e em tudo o que envolva escolas ou feriados. Quem responder ao acaso nessas rubricas não está a falhar por ignorância.
Jogar sem ligação
A promessa está no próprio nome e cumpre-se sem letra pequena. Depois de instalado, tudo o que interessa fica no telemóvel: percorri um percurso inteiro em modo de voo, num comboio sem cobertura decente, e não houve um único momento de espera. É a razão prática pela qual esta aplicação sobreviveu no meu telemóvel a outras do mesmo género, que obrigam a estar ligado para carregar cada pergunta.
Português e tradução automática
Aqui está o problema mais visível. Boa parte das perguntas passou por tradução automática sem revisão, e vê-se: concordâncias trocadas, expressões vertidas à letra, termos que ninguém usa em Portugal. Em muitos casos o sentido safa-se e responde-se à mesma; noutros, a opção correta fica ambígua porque a palavra escolhida na tradução não é a que a pergunta pedia. Falhei perguntas cuja resposta sabia, e isso é o género de coisa que faz desistir de uma aplicação.
Há ainda a mistura de registos: umas rubricas usam vocabulário europeu e outras aparecem em português do Brasil. Não é grave para quem entende ambos, mas deixa a impressão de um conjunto montado aos bocados. Uma revisão feita por alguém que fale a língua resolveria metade dos defeitos desta aplicação.
Onde fica em relação aos outros questionários
Comparado com o resto da categoria, destaca-se por funcionar isolado e perde no rigor da escrita. As alternativas que dependem de estar ligado costumam ter perguntas mais bem revistas e adversários humanos do outro lado, mas param no instante em que o comboio entra num túnel. Fiquei com este por causa disso, plenamente consciente de que troquei exatidão por disponibilidade.
Balanço
A favor
- Funciona por completo em modo de voo, sem esperas entre perguntas.
- O tempo por pergunta está bem medido: chega para ler o enunciado e não chega para ir consultar nada.
- As rubricas de conhecimentos gerais e de geografia estão bem escritas e exigem mesmo saber a resposta.
- As sessões são curtas e interrompem-se a meio sem qualquer penalização.
Contra
- A tradução automática deixa opções ambíguas e faz falhar perguntas cuja resposta se sabe.
- Uma parte considerável do material foi escrita para quem vive nos Estados Unidos.
- Não há progressão que justifique voltar: os ecrãs de fim de ronda repetem-se sempre iguais.
Veredicto
Continua instalado no meu telemóvel, o que já é uma opinião. O ciclo de pergunta e resposta funciona, o relógio está bem medido e a independência da rede resolve um problema concreto de quem viaja. Em troca aceito uma tradução descuidada e uma quantidade considerável de perguntas pensadas para outro país. Se procura companhia para minutos mortos, chega bem; se lhe interessa o rigor do enunciado, vai irritar-se.