Hidden Folks - Caça ao Tesouro em detalhe
O dedo arrasta o mapa para a esquerda, encontra um cesto de piquenique atrás de um arbusto, afasta dois dedos para ampliar e percebe que aquilo que parecia uma pedra é afinal um chapéu. É assim, minuto após minuto, o tempo que se passa dentro deste jogo: cenas ilustradas em traço simples, uma lista de coisas para encontrar no rodapé e nada a acontecer no ecrã enquanto não se toca no sítio certo.
Cenas ilustradas e objetos escondidos
Cada mapa é um desenho largo, muito maior do que o ecrã, povoado de casas, árvores, barcos, animais e figuras humanas do tamanho de uma unha. A lista de procura mostra miniaturas do que falta, e o cenário não se altera à medida que o jogo avança — o que muda é a atenção de quem procura. A escala é sempre a mesma e a orientação também, o que ajuda a memória a fixar cantos do desenho.
O traço é agradável e propositadamente ingénuo, com pouco contraste de cor e muito pormenor repetido. Essa escolha estética é metade do interesse do jogo e metade da sua dificuldade: as coisas escondem-se por semelhança com o que as rodeia, não por estarem tapadas.
Zoom, toque e a paciência do olhar
A navegação resume-se a dois gestos, arrastar e ampliar, e ambos respondem bem. Ampliar é obrigatório: em tamanho normal, metade dos alvos são manchas de três pontos. Quem tem o ecrã pequeno vai passar boa parte da sessão a percorrer o desenho em passos curtos, e isso é mais cansativo do que parece à primeira vista.
Não há relógio nem contagem de erros, o que muda por completo o tom. Toca-se onde se quer, as vezes que se quiser, e a sessão acaba quando apetecer. Foi essa ausência de pressão que me fez voltar durante uma semana, sempre em bocados de cinco minutos. Também não há nada a explodir nem música a puxar por quem joga: o som é discreto e pode ser desligado sem perder informação nenhuma.
Repetição de mapas
É aqui que o jogo perde pontos comigo. Os cenários novos abrem-se à medida que se completam os anteriores, mas o alfabeto visual é quase sempre o mesmo: as mesmas árvores, os mesmos telhados, as mesmas figuras a acenar, recolocados noutra ordem. Ao quinto mapa já reconhecia a silhueta da coisa procurada antes de perceber onde estava.
O resultado é que a curva de descoberta se esgota depressa. Continua a servir como passatempo de fundo, mas deixa de haver surpresa, e a diferença entre um cenário e o seguinte passa a ser apenas o número de coisas por encontrar. Convém dizer que isto é um problema de quem joga muito seguido; em sessões espaçadas por dias, a reciclagem passa despercebida.
Para jogar com crianças ao lado
O melhor uso que lhe encontrei foi partilhado. Com uma criança de seis ou sete anos ao lado, o ecrã do telemóvel chega para duas pessoas, e a procura transforma-se numa conversa: quem vê primeiro, quem aponta, quem discorda. Não há leitura obrigatória nem texto para interpretar, o que o torna acessível a quem ainda não lê corrido. Nesse cenário, a repetição deixa de incomodar, porque a graça já não está na novidade do desenho mas em encontrar antes do outro.
Balanço
A favor
- Os dois gestos de controlo, arrastar e ampliar, respondem bem e não exigem precisão de adulto treinado.
- Não há relógio nem penalização por tocar no sítio errado, o que torna a sessão realmente calma.
- Joga-se a dois no mesmo ecrã, com uma criança que ainda não lê, sem qualquer adaptação.
Contra
- Os cenários reciclam os mesmos elementos desenhados e tornam-se previsíveis a partir do quinto mapa.
- Em ecrãs pequenos é preciso ampliar quase sempre, e percorrer o desenho aos bocados cansa a vista.
- O baixo contraste do traço confunde as figuras com o fundo de uma forma que nem sempre parece justa.
Veredicto
Fica-me a impressão de um jogo bem desenhado e completamente inofensivo, que cumpre o que promete durante as primeiras horas e depois se torna previsível. Vale a instalação se procura algo silencioso para os intervalos, ou para partilhar com uma criança; não vale a expectativa de conteúdo que dure meses. A nota reflete exatamente isso: execução cuidada e ambição curta.