O que esperar de Colorscapes® - Color by Number
Há uma categoria de aplicações que não pede nada a ninguém, e esta pertence-lhe por inteiro. Escolhe-se um desenho dividido em áreas numeradas, toca-se na cor com o número correspondente e vai-se preenchendo, mancha a mancha, até a imagem aparecer. Não há tempo a contar, não há engano capaz de estragar o trabalho e não há nada para decidir além de onde continuar. Instalei-a por curiosidade e acabei a usá-la ao fim do dia, quando já não tenho paciência para jogos que exigem atenção.
Pintar por números, sem pressa
A mecânica é tão antiga como os cadernos de pintar da infância e sobrevive intacta. Cada zona do desenho traz um número pequeno; a paleta em baixo mostra as cores disponíveis com o número correspondente; toca-se e a zona ganha cor. Se acertar na zona errada, nada de mau acontece: a cor simplesmente não entra.
Essa impossibilidade de falhar é o que distingue a experiência de um jogo verdadeiro. Não se compete, não se perde, não se recomeça. O que resta é o gesto repetido e a imagem a ganhar forma, e reconheço que passei com isso mais tempo do que devia.
Biblioteca de imagens e temas
O acervo é generoso e está arrumado por temas: paisagens, animais, flores, padrões geométricos, retratos, cenas de cidade. Há desenhos de trinta zonas, que se acabam num semáforo vermelho, e composições com centenas de áreas minúsculas que ocupam várias sessões. A qualidade é desigual — algumas ilustrações são bonitas, outras parecem saídas de um catálogo genérico — mas o volume é tal que se encontra sempre alguma coisa que apetece pintar. Entram imagens novas com frequência suficiente para não se dar pela repetição.
Uma mão só, no autocarro
Este é o argumento prático mais forte da aplicação. Tudo se faz com o polegar da mão que segura o telemóvel: tocar para pintar, arrastar para deslocar, e só juntar dois dedos quando as zonas ficam muito pequenas. Usei-a de pé no autocarro, com a outra mão na barra, e não senti falta de nada. Poucas aplicações deste site aguentam esse teste sem se tornarem desconfortáveis. De pé, com o braço encostado ao corpo, continuei a acertar nas zonas médias sem falhar.
Conforto visual e descanso
A ampliação automática ajuda: quando falta pouco por pintar numa zona, a imagem aproxima-se sozinha e evita o toque falhado. Há também um modo escuro que escurece tudo o que rodeia o desenho, e isso faz uma diferença real com a luz da sala apagada.
Ainda assim há um limite. Os desenhos com muitas áreas pequenas obrigam a aproximar bastante e a fixar o olhar em pormenores de poucos milímetros; ao fim de vinte minutos senti os olhos secos. Vale mais alternar composições grandes com imagens simples do que insistir numa só durante toda a noite.
Quando deixa de ser relaxante
A crítica séria que tenho a fazer é que o gesto se automatiza. Passada a primeira dezena de imagens deixa de haver descoberta: sabe-se exatamente o que vai acontecer, e a mão trabalha sozinha enquanto a cabeça vai a outro lado. Para muita gente é precisamente isso que se procura; a mim chega-me o momento em que aquilo se parece mais com uma tarefa do que com um descanso.
Há ainda um pormenor que incomoda quem gosta de desenhar: o resultado não é seu. A composição, as cores e o enquadramento já estavam decididos, e o que se faz é executar. Quem procura uma aplicação de desenho livre vai sair desiludido — isto é outra coisa, e é honesto quanto ao que é.
Balanço
A favor
- Pinta-se inteiramente com o polegar de uma mão, o que a torna utilizável de pé no autocarro.
- Não existe maneira de estragar um desenho: o toque errado simplesmente não pinta nada.
- A biblioteca cobre temas muito diferentes e inclui desenhos curtos para sessões de dois minutos.
- O modo escuro reduz mesmo o incómodo de pintar com pouca luz à volta.
Contra
- O gesto torna-se automático ao fim de algumas dezenas de imagens e o interesse cai a pique.
- As composições com centenas de áreas minúsculas exigem ampliação constante e cansam a vista.
- Não há espaço nenhum para escolhas próprias: a paleta e o enquadramento já vêm decididos.
Veredicto
Cumpre bem uma função estreita: ocupar as mãos sem ocupar a cabeça, em sessões que tanto podem durar dois minutos como meia hora. A biblioteca é grande, o controlo com uma mão é exemplar e o modo escuro mostra cuidado com quem pinta à noite. Baixam a nota a natureza mecânica do exercício e o cansaço visual das imagens mais densas. Recomendo-a como passatempo de fim de dia, não como atividade criativa.