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Análise · Jogos de palavras

Caça Palavras Brasileiro da Bluetile em detalhe

O dedo assenta numa letra, arrasta na diagonal e a palavra acende-se com um traço de cor. É este o gesto que sustenta as horas todas que passei com o Caça Palavras Brasileiro da Bluetile, e não há muito mais do que isto para explicar: uma grelha de letras, uma lista ao lado e o tempo a passar sem que se dê por ele.

Contava desinstalá-lo ao fim de dois dias e o que aconteceu foi o contrário: ficou-me lá, e usei-o mais do que qualquer outro deste grupo. Não é um jogo com ideias novas; é um jogo bem afinado, feito por quem percebeu que o essencial neste género são a leitura da grelha e a sensação do toque. Falha noutras coisas, e vou lá chegar.

Ecrã de jogo de Caça Palavras Brasileiro
Caça Palavras Brasileiro: um dos primeiros ecrãs de jogo.
Ecrã de jogo de Caça Palavras Brasileiro
Caça Palavras Brasileiro: o mesmo jogo com o tabuleiro mais adiantado.

Grelhas temáticas e viagem pelo mundo

A moldura narrativa é uma viagem: cada conjunto de grelhas está agarrado a um destino, e avançar significa mudar de paisagem no mapa. É uma justificação fina para organizar centenas de níveis, e funciona melhor do que eu esperava, porque as listas de palavras acompanham o tema em vez de serem sorteadas ao acaso. Numa etapa aparecem termos de cozinha, noutra nomes de animais, noutra ainda vocabulário de praia.

O efeito prático é que a memória passa a ajudar. Depois de duas ou três grelhas do mesmo tema, o olho começa a procurar terminações prováveis antes de ler a lista completa, e isso acelera tudo de forma notória. É uma progressão de competência que o jogo nunca explica ao utilizador, e provavelmente é melhor assim.

Quatro graus de dificuldade

São quatro os graus disponíveis, do mais simples ao que o próprio jogo trata por nível profissional, e a diferença entre eles não é cosmética. No grau inicial as palavras estão quase todas na horizontal e na vertical; a partir do intermédio entram diagonais e leituras invertidas, e a grelha cresce até encher o ecrã. Quem entra pelo grau mais fácil e fica por lá vai achar o conjunto monótono em poucos dias. A recomendação que faço é saltar já para o terceiro.

Palavras em português: o que esperar

Convém dizê-lo sem rodeios, porque afeta quem joga em Portugal: o vocabulário é o do português do Brasil. Aparecem grafias e escolhas de palavra que não são as de cá, e há termos de uso corrente do outro lado do Atlântico que em Lisboa ninguém diz. Não é defeito do jogo, que foi feito para outro público, mas é informação que muda a experiência. Quem tiver paciência para a diferença leva até um pequeno extra, que é ir descobrindo variantes regionais pelo caminho; quem se irritar com ela vai tropeçar em quase todas as grelhas.

Jogar sem rede, no comboio

Levei-o para a Linha de Sintra em modo de voo e não perdi um único nível. Tudo o que interessa está instalado no telemóvel: as grelhas, as listas, o registo do que já fiz. Não há espera por servidores nem aquele ecrã de ligação perdida que estraga metade dos jogos deste género. Para quem faz trajetos longos sem ligação à Internet fiável, este é provavelmente o argumento mais forte de todos.

Para quem gosta de uma rotina diária

Há um tipo de jogador para quem isto foi feito: o que abre uma aplicação de manhã, resolve duas ou três grelhas e fecha. O ritmo do Caça Palavras Brasileiro serve esse hábito muito melhor do que serve uma sessão longa, porque a estrutura é sempre a mesma e ao fim de vinte minutos seguidos a atenção cede. Na minha experiência, o ponto ótimo anda pelos dez minutos. Se procura algo que o prenda uma tarde inteira, não é aqui que o encontra.

Balanço

A favor

  • Os quatro graus alteram mesmo a construção da grelha, e não apenas o número de palavras a encontrar.
  • Funciona por completo sem ligação à Internet, incluindo o registo do progresso.
  • As listas de palavras seguem o tema de cada etapa, o que ajuda a antecipar terminações.
  • O arrasto do dedo é preciso, e raramente marquei uma palavra por engano.

Contra

  • O vocabulário segue a norma brasileira e obriga a alguma adaptação de quem joga em Portugal.
  • O grau mais fácil é demasiado permissivo e dá uma ideia errada do jogo a quem começa por ele.
  • A estrutura repete-se sem variação, e em sessões acima de vinte minutos o cansaço aparece.

Veredicto

Ficou-me no telemóvel, e esse é o teste que interessa. É um caça-palavras sem invenção nenhuma, mas com a execução certa: grelhas legíveis, temas coerentes, quatro graus que fazem diferença real e independência total de ligação. O travão é linguístico e não técnico, por isso, se o português do Brasil o incomoda, desconte um ponto largo à minha nota. Para os restantes, é o melhor deste tipo que experimentei.